Legalização da maconha no Canadá interessa e preocupa

Legalização da maconha no Canadá interessa e preocupa

Ultimamente eu venho recebendo várias perguntas e comentários sobre a legalização da maconha no Canadá, que pode acabar acontecendo este ano, se o governo de Justin Trudeau conseguir a aprovação da lei pelo Parlamento. Algumas pessoas estão só curiosas, outras realmente interessadas. Muitas porém, especialmente pais e mães de filhos jovens, estão preocupadas. Afinal, há muitas dúvidas sobre quais serão as restrições que o governo pretende impor na legislação do uso da cannabis para uso recreativo.

Atualmente, o comércio e o consumo de maconha no Canadá são legais apenas para fins medicinais – e são regulados pelo Ministério da Saúde do país. Os produtores só podem operar sob licença emitida por esse órgão e existem hoje 40 produtores nacionais licenciados.

 

Eles fornecem para cerca de 70 mil pacientes canadenses que consomem a droga com receita médica. Mas é óbvio que muita coisa acontece por baixo do pano, e quem quiser comprar maconha no Canadá hoje, para qualquer finalidade, não tem muita dificuldade.

 

O primeiro-ministro Justin Trudeau

A proposta de legalizar o consumo recreativo de cannabis no país, segundo o partido Liberal (que Justin Trudeau representa), deve servir para criar um sistema de produção, distribuição e vendas restrito.

O próprio projeto de lei admite que existem riscos reais para a saúde e segurança pública associados ao uso de maconha, incluindo – principalmente – como esse consumo afeta o desenvolvimento físico e psicológico dos jovens.

Áreas do cérebro afetadas pelo uso constante de cannabis

O argumento favorável é que a liberalização regulamentada de maconha funcionaria mais ou menos como a venda de cigarros e bebidas alcóolicas. O produto vendido tem origem e qualidade controlada, o que ajuda (um pouco?) a proteger a saúde dos consumidores e a segurança pública em geral. Desde que, naturalmente, o consumidor também seja controlado e não saia fazendo besteira por aí…

Produção de cannabis: origem e qualidade controladas

Além disso, o sistema reduziria as chances de lucro dos traficantes e produtores ilegais, e dificultaria o acesso dos jovens ao produto. Duvidoso…  A venda de bebidas alcóolicas e cigarros para menores de 18 anos é estritamente proibida, mas isso nunca impediu nenhum adolescente aqui de beber e de fumar.

A legalização da maconha, se acontecer, não será para promover seu uso, muito menos entre jovens. Existe o consenso de que esse consumo por adolescentes deve ser fortemente desencorajado.

A campanha do mesmo governo que pretende regulamentar o uso da cannabis esclarece que seu uso pode afetar a estrutura e o funcionamento do cérebro, que ainda está em formação até depois dos 20 anos de idade. Também alerta que o consumo regular de maconha aumenta seriamente os riscos de doenças mentais.

A questão é que existe uma tendência dessa nova geração de ignorar esses dados e considerar que o consumo de maconha não é uma questão muito séria. Então cabe aos pais (e às escolas também) falar abertamente do assunto, com clareza e objetividade, desde que as crianças tiverem idade para entender.

Com tanto debate sobre esse tema e com tanta informação disponível hoje em dia, eu acho que os pais têm que estar preparados para conversar sobre o uso de maconha com seus filhos mesmo antes acharem o primeiro baseado escondido por aí. E conversar não é “pregar”, muito menos atacar ou condenar. É sobretudo estar aberto e disponível.

 

Infográfico de recomendação das restrições à liberação da maconha, publicado pelo Centro para Dependência e Saúde Mental

Não estou, de maneira nenhuma, encorajando ninguém a acreditar que jovens podem fumar maconha sem problema. Muito pelo contrário. O que eu quero dizer é que a postura moralista e crítica, assim como as táticas ameaçadoras e punitivas já não funcionam muito hoje em dia. O que funciona hoje – e honestamente, acho que sempre funcionou e vai funcionar – é uma boa comunicação.

Se alguma coisa é arriscada, perigosa, nociva, ou todas as anteriores, proibir e punir somente não faz ninguém – muito menos jovens – entenderem os riscos e as consequências. Também não acho que o Google e as mídias sociais possam substituir o diálogo e o apoio familiar. Ninguém aprende a ser sensato pela Internet.

No entanto, outra coisa que eu já aprendi é que, por melhor que seja a comunicação, nossas opiniões e princípios não vão ser necessariamente as opiniões e princípios dos nossos filhos… A questão não é ficar repetindo e batendo na mesma tecla. Eles sabem como você pensa. Só que às vezes escolhem ignorar.

Quando eles são crianças, essa escolha é bem limitada. Mas quando eles ficam mais velhos e têm direito de nem sempre agir como a gente prefere, é preciso fazer ajustes. E cada família tem que encontrar o que funciona no seu caso.

No meu, por exemplo, a maconha, legalizada ou não, não entra em casa, assim como não entra tabaco. Ou melhor, tabaco entra discretamente, porque a gente não sente cheiro de cigarro que não foi aceso, mas a maconha daqui tem um odor inconfundível, que eu identifico até se estiver dentro de um cofre.

O que claro, não quer dizer que isso vai impedir qualquer um dos meus filhos de fumar em outro lugar se eles quiserem… Só que pelo menos vão fazer uma escolha consciente e esclarecida.

 

 

 

Related posts

2 thoughts on “Legalização da maconha no Canadá interessa e preocupa

  1. Isabela Gomide

    Muito bom esse texto!

    1. Cris Medeiros

      Obrigada Isabela!

Leave a Comment